Nada é de graça, mas pode ser compartilhado

28/01/2010 às 23:26h


À primeira vista o tema pode parecer uma contradição em si, mas é plenamente compreensível a partir das falas dos convidados para o painel Patrick Viveret (Centro Internacional Pierre Mendes, França), Lilian Celiberti (Articulação Feminista do Mercosul, Uruguai), Ladislaw Dowbor (IPF/PUC-SP), Nila Heredia (ALAMOS, Bolívia) e João Joaquim de Melo Neto Segundo (Banco Palmas, Brasil).

Para Dowbor pensar a gratuidade não significa pensar que todas as coisas não terão custo, mas sim relativizar o conceito de consumo. Segundo ele, há formas de consumo coletivo que se tornam incomparavelmente mais baratas que o consumo individualizado e é justamente este contraponto que está no cerne da questão da economia e gratuidade implicando nos objetivos para que a chamada sociedade do conhecimento se estruture. “Podemos enriquecer a humanidade de maneira radicalmente inovadora. Isso vai ter repercussões imediatas nos custos das coisas”, disse o palestrante, evocando vários exemplos de como é possível se ter economia e gratuidade, como o caso do acesso à internet (banda larga em casa ou rede aberta nas cidades) ou do transporte e locomoção (privado ou público). Sendo assim, a gratuidade é uma forma de racionalizar os recursos da sociedade e que se apresenta absolutamente necessária vista a insustentabilidade do modelo capitalista, por exemplo, no que toca a exploração de recursos naturais.

Já a médica boliviana e ativista social Nila Heredia falou em gratuidade e economia sob o ponto de vista dos direitos do cidadão, em especial à saúde. Para ela a saúde “é o resultado das condições de vida que nós temos, e não, como se utiliza atualmente na lógica do mercado, um elemento mercantilista com o entendimento de que quando as pessoas ficam doentes trata-se de um problema privado e supõe-se culpa ao doente” disse a médica, chamando atenção para o atual cenário em que “cria-se” doenças para que se aumente a produção das grandes multinacionais da área farmacêutica em uma visão desumanizada da saúde. “No âmbito médico a aplicação da tecnologia se desenvolveu muito mais do que a formação e o estudo clínico. Então, não é extranho que a saúde é o que tem gerado mais negócios e dá mais lucro no mundo ao lado da indústria bélica. Não é estranha a resistência que Baack Obama enfrenta à reforma nos Estados Unidos, é uma resistência em nome do financiamento dessas grandes empresas do ramo aos políticos”.

A feminista uruguaia Lilian Celiberti e o filósofo francês Patrick Viveret discorreram acerca da gratuidade e da economia também como algo que deve estar inevitavelmente na agenda dos Fórum Social e dos movimentos  enfatizando, no entanto, uma análise mais metafísica do tema, apresentando-o como uma questão ética.

Todos os participantes do debate foram claros ao apontar o que fazer para que a economia com gratuidade seja ampliada, saia do gueto das atividades já existentes como o Banco Social ou a Economia Solidaria e ganhe a maioria dos cidadãos e o modo de vida coletivo: o papel determinante dos movimentos sociais e de todos os cidadãos de forma consciente nos processos democráticos ou na luta por estes espaços. A partir desta participação e interferência a proposição e a pressão ao Estado poderá recolocar a economia em um novo plano – solidário, justo e de coletividade.

 


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