
Comunicação, informação, marketing. Acesso à informação, exploração de novas faculdades, facilidades e produção para o ciberespaço. São diversos os objetivos, tanto pedagógicos como claramente mercadológicos a serem utilizados pelas instituições de ensino quando da implantação das inovações tecnológicas - a cara do século XXI. Uma situação que configura nova face e novas exigências à profissão de educar
Enquanto se acessa a grande rede de casa, oi, experimenta-se edições e linguagem digital na tranqüilidade do escritório está tudo tranqüilo. Mas o que acontece quando o domínio desta nova linguagem é exigido para se fazer o que empresta identidade ao sujeito? O que acontece quando se exige do professor que seu trabalho passe, obrigatoriamente, pelos bits, telas, cabos rumo ao ciberespaço?
Para o professor de Informática Mestre em Educação nas Ciências Adão Caron Cambraia, o uso do computador e da Internet, como portais, sites, blogs, cadernos de chamada on line, e-mails e outras ferramentas trata-se de um processo sem volta. Com uma visão otimista, Cambraia acredita que a tendência é a adaptação sem grandes traumas. “Uma coisa que está presente hoje em todas as escolas é a questão da Informática e do uso da Informática. O professor, além da sua área de conhecimento, tem que pensar algo que envolva a questão da Informática. Isso está presente nas escolas de uma forma bem forte, até para promover uma educação-outra. Mas, nesse contexto, há uma certa aplicação da tecnologia que o professor vai ter que ter. Vai ter que chamar para si como responsabilidade. Claro que a um primeiro momento pode significar um certo envolvimento maior do professor. Mas, com o tempo, a tendência da presença das tecnologias na escola é ‘se naturalizar’ e o professor usá-la de uma forma mais confortável, como o que aconteceu com o telefone celular, por exemplo”, exemplifica o professor. “Hoje a pessoas, não todas, têm o celular como algo que não incomoda. Ele toca, você atende... Claro que tem que ter o momento certo, saber a hora de ligar e ter ele à mão, mas tornou-se uma coisa parte da pessoa”, argumenta Cambraia que leciona Informática no Centro de Educação Básica Francisco de Assis (EFA) e também os componentes curriculares “Ambientes virtuais na educação” e “Tecnologias e educação” para o curso de Pedagogia da Unijuí.
Com certeza, para os trabalhadores que já convivem com as inovações por conta da área do saber sobre a qual ensinam, há uma facilidade maior em administrar e adaptar-se às exigências deste mercado de trabalho em reconfiguração. Geralmente, o que acontece é o cruzamento da Informática com os outros componentes curriculares, o que gera auxílio para os professores. “Tenho algumas horas para pensar projetos com os professores. Por exemplo, na Física, uma situação de estudo que estude a água. Dado isso, vamos criar um blog para fazer essa orientação de estudos e interagir com os alunos e o trabalho será lincado no blog da escola.”
Ainda assim, o desafio é grande aos que, como destaca a professora da Educação Infantil do Colégio Sagrado Coração de Jesus Claudete Drews, foram alfabetizados sobre outros suportes. “Uma forma totalmente diferente, em uma época totalmente diferente. Mas, hoje, temos que andar junto e sabemos que os nossos alunos, às vezes, sabem mais do que nós porque estamos vivendo na era digital”, diz a professora, contando como está acontecendo a adaptação dos professores à inovações como a Lousa Interativa, implantada pela escola neste ano. “Hoje aqui na escola estamos tendo cursos quinzenalmente. A mantenedora vem de Porto Alegre e está nos auxiliando para que a possamos, realmente, passar um bom trabalho para os nossos alunos. De que forma a gente faz isso? Junto com a professora da Informática Educativa. Estamos, também, conhecendo esse trabalho. No site, o professor também tem um blog onde vai colocar o seu trabalho realizado no dia-a-dia da sala de aula. Lógico que não vamos colocar todas as atividades, apenas algumas que sejam mais relevantes, uma culminância ou um viés para um novo conteúdo” conta a professora que trabalha com crianças de quatro anos de idade.
A realidade parece ser unívoca em exigir adaptação em curto espaço de tempo para os que não dominam a nova tecnologia, o que para Cambraia pode ser visto pelo lado natural da situação. O professor elucida a questão com o exemplo do sistema de notas on-line que será implantado na EFA. “Eu entendo isso como uma facilidade para o professor. O professor que não é da área, certamente, terá um pouco de dificuldade de se apropriar, mas, com o passar do tempo, irá se acostumar com o ambiente, a tendência é de não viver mais sem isso. Porque antes tinha-se que colocar a nota, somar a nota, fazer as médias... Agora não precisa mais, só se lança a nota, o computador calcula a média. Então, eu acredito que com o tempo, haverá uma tranquilização, da mesma forma que aconteceu com outros aparelhos tecnológicos e inovadores em outras épocas”.
A perspectiva apontada pelo professor de Informática parece possível, o que, nem por isso, significa um processo sem desafios a serem vencidos, como comenta o professor de Filosofia da Unijuí Maciel Viera. “Eu sou de uma geração aonde, de fato, só lidava-se com o papel e com o apontamentos de registros feitos em papel. Nesse sentido, o caderno de notas eletrônico é uma novidade. No primeiro momento isso causa um impacto, vem para nos assustar e, num segundo momento, você percebe que são ferramentas que facilitam o trabalho tanto do professor quanto do estudante para se manter informado, atualizado, poder se comunicar, inclusive, através dele com o professor”.
Para além do caráter facilitador que as inovações tecnológicas podem oferecer ao trabalho do professor também existem as questões pedagógicas, como enfatiza Viera. “Primeiro tem que ter o domínio dessas ferramentas, pois, para nós elas são instrumentos mediadores que vão auxiliar no fazer pedagógico e pela necessidade não há como fugir deles. E os estudantes também estão se utilizando dessas ferramentas, o que gera uma demanda direta com relação ao professor todo o tempo, através do e-mail. Para além disso ainda temos outros instrumentos, os chamados instrumentos de mídia, como data-show e DVDs que também são instrumentos pedagógicos importantes. Sobre estes temos que destacar que estamos utilizando bastante por conta de pensar alternativas, como lidar com a imagem, por exemplo, além de expor um texto eletronicamente, apenas. Chegamos até este ponto”, comenta, referindo-se à reflexão existente no Curso de Filosofia acerca da utilização das novas mídias.
TEMPO&ESPAÇO - Da mesma forma que aconteceu em outros setores quando do advento de tecnologias inovadoras e que prometem otimizar tempo e afazeres, há que se atentar para a questão do tempo e espaço de utilização destas novidades no Ensino. Afinal, historicamente, tempo e espaço de trabalho são confundidos e misturados quando se trata de Educação, o que gerou, inclusive, uma das principais bandeiras da luta sindical da categoria dos professores nas últimas décadas. Sobre isso, mais uma vez, há diferentes realidades e fatores. “Eu costumo dividir o que é de trabalho e o que não é. Tanto que e-mail, por exemplo, eu tenho um que é de trabalho, no domínio da Unijuí e outro que é pessoal, para não misturar as coisas. Pois, se quero conversar com um amigo, sei que é naquele e-mail que vou acessar. Se misturar as duas coisas, daqui a pouco eu vou acessar para ler a mensagem de um colega, de um amigo e vou achar trabalho e vou me envolver. Tudo é uma questão da pessoa saber e organizar e saber delimitar este tempo” opina Cambraia.
No entanto, a capacidade de auto-organização não é algo fácil a todos e grande parte dos professores passa por esse processo a duras penas, como relata Viera. “Isso eu não sei fazer ainda. Talvez isso interfira diretamente nas questões de trabalho. A questão do tempo. Porque a gente mexe com esses instrumentos, como o computador, a qualquer hora. Os finais de semana, depois do expediente... Você precisa responder e está a toda hora mexendo nisso. Não há uma organização nesse sentido, um tempo específico para tanto. Então, de fato, interfere e não temos claro como organizar isso”, analisa o professor de Filosofia.
Para Claudete, a administração do tempo que pode sobrar por um trabalho realizado mais rapidamente, ou pode faltar, em função da grande exigência profissional, é uma questão a ser pensada coletivamente. “A questão de que nós, professores, trabalhamos muito, temos pouco tempo e, por trás do nosso trabalho temos nossas famílias, das quais também precisamos dar conta. Então, a dificuldade, em si, é o tempo. Para eu me interar com essas novidades e até para blogar, colocar o que estou fazendo preciso de um tempo para isso. Principalmente se vou pegar o conteúdo de um site e jogar para outro, ou um vídeo... Preciso desse tempo esse tempo, realmente, não está computado dentro das horas que a gente trabalha na escola. Realmente, a gente precisa lutar por esse espaço”, analisa a professora.
Realmente trata-se de uma luta para conquistar algo que parece pouco provável, a julgar pela rotina já banalizada de leva trabalho para casa, como descreve Cambraia. “Ainda não nos foi falado se teremos um tempo para isso. Eu acredito que o professor vai continuar utilizando o papel na sala de aula, fazendo seu cálculo de notas e depois lançar no site. Com o tempo, acredito, o professor poderá utilizar só o eletrônico e aí acabará sendo mais fácil: abrir o notebook e fazer a chamada on-line. O ideal é que se tenha tempo para isso, mas, da mesma forma que há professores que fazem o trabalho da média fora do horário da aula, acredito que haverá professores que irão lançar a faltas e notas fora do horário da aula”, vislumbra o professor de Informática, prognosticando o que já faz parte da realidade para muitos professores universitários, mas ainda é difícil para outros tantos, como conta Viera. “É uma questão de mudança até de concepção, de paradigma. Há toda uma organização que é cultural, que é lidar com conceitos que são expressos em textos em papel, livros, é um espaço diferente... Essas novas tecnologias rompem com isso, é outro discurso que constrói as relações de trabalho. Você nem sabe direito o quanto isso fez você trabalhar mais, em horários em que não estaria... Aliás, não se tem nenhuma discussão sobre como organizar isso”.
Especificamente no mundo do trabalho, esta é uma missão que se apresenta como novo paradigma para o sindicalismo, afinal, trata-se de novos tipos de trabalho, com novas relações de trabalho, para o que a velha fórmula do século XX não serve mais. Como analisa a professora Claudete, é algo que deve ser tratado de forma coletiva. “Se estamos falando em qualidade na educação, nós também precisamos ter um tempo para realmente dar essa qualidade. A gente tenta, a gente faz, com certeza, mas talvez pudéssemos aprimorar muito mais esse espaço e essa tecnologia que está sendo oferecida para nós hoje. Até mesmo em termos de preparação de aula. É uma realidade diferente e é uma coisa que precisamos aprender e também colocar em prática. Não é simplesmente dizer que não, ou que é impossível, mas, como categoria, como professores, precisamos ter esta conquista. Precisamos de um espaço para esse trabalho com as novas ferramentas do século XXI”, diz Claudete, argumentando sua posição com base no respeito à competência dos professores, o que, a princípio sempre será o principal meio e o elemento fundamental para o processo de ensino e aprendizagem.