\\ INFORMAÇÃO \ opinião

Leia o artigo "Tempos Modernos"

Publicada em 27/10/2010.

João Carlos Cavalheiro.
Professor de filosofia (CEAP).

 

Esse meu jeito de alçar a perna
De mirar ao longe o horizonte largo
É o contraponto de beber auroras
Quando cevo a alma pra sorver o amargo

Esse silêncio que me traz distância
Que me agranda o canto entre campo e céu
É o contraponto de acender o fogo
Meço um metro e pouco da espora ao chapéu

Essa coragem de pelear de adaga
De ser um gigante pela liberdade
É o contraponto de juntar terneiros
E acenar aos velhos e ter humildade

Essa audácia de buscar o novo
Sem pisar no rastro e reacender as brasas
É o contraponto de ter prenda e filhos
E ficar tordilho ao redor 'das casa'.

Contraponto. Cristiano Quevedo.



“BBB 10” é sigla ainda viva no imaginário de muitos brasileiros, apesar de reality show (?) global ter findado em 30 de março último. E por quê?
A importância da televisão por aqui é desproporcional em relação aos outros meios — e dá às comunicações no Brasil um perfil bastante desequilibrado em relação a outras democracias.
Segundo Baccega (2000), é preciso enfrentar a discussão, perceber o campo, construí-lo como objeto científico, conhecê-lo, pois são os meios que, contemporaneamente, atribuem significado à realidade, conformando nossas identidades. Sua presença envolve a todos, percorrendo todos os níveis, e apresentam profundas implicações no funcionamento da sociedade contemporânea, participando ativamente do processo educativo. (pág. 99).
Pesquisas no mundo todo indicam que as pessoas ficam expostas em média de três a quatro horas diárias à televisão. Bechelloni (1995) revela que a exposição aos meios, incluindo mídia impressa, cobre a terça parte do tempo dos seres humanos nas sociedades industrializadas, perdendo apenas para “dormir” e “trabalhar” (pág. 47). A partir dos embates entre apocalípticos e integrados, parece inegável a necessidade — a mais das vezes contestada — de estudos e sistematizações que tenham a mídia como objeto principal.
Os media, sobretudo a TV, ao produzirem informações, transformam os acontecimentos selecionados em verdadeiros espetáculos, por exemplo. Já na década de 60, Guy Debord percebia “na vida contemporânea uma ‘sociedade de espetáculo’ em que a forma mais desenvolvida de mercadoria era antes a imagem do que o produto material concreto”, e que “na segunda metade do séc. XX, a imagem substituiria a estrada de ferro e o automóvel como força motriz da economia” (pág. 48).
A TV oferece festivais de pancadarias, mortes ao vivo, filmes baixos e apresentadores deseducados. Seu repertório parece uma explosão sem rumos, contribui Bucci (2000, pág. 127).
Na segunda metade do séc. XX, a televisão redefiniu, em escala planetária, as formas como se organizam a comunicação e os vínculos sociais nas mais diferentes culturas, diz Kehl (2000, pág. 133). E prossegue incisiva: “diante da TV ligada, isto é, diante de um fluxo contínuo de imagens que nos oferecem o puro gozo, não é necessário pensar (...) e quanto mais o fluxo de imagens ocupa espaço na nossa vida real e na nossa vida psíquica, menos é convocado o pensamento” (pág. 137). Não foi Hannah Arendt quem teorizou acerca do mal absoluto, aquele que vem da superfluidade do ser humano, da ausência de reflexão, da banalização da condição humana?
Vivemos a sociedade da Internet, a TV já foi, poderia contrapor-se alguém. No entanto, há uma produção imaginária da qual a televisão ainda é o principal veículo, pois ela é onipresente e onisciente como Deus: pode estar em todos os lares ao mesmo tempo e o tempo todo, como emissora de fragmentos de um grande saber. E já extrapolou o espaço dos lares: vá a um restaurante, lá está ela ligada, a um aeroporto, ei-la, a um consultório médico... Você pode se esconder? Lembra da ficção do Grande Irmão de George Orwell? Só que segundo Kehl, ela não está apenas nos olhando, também está nos propondo. Não somos nós que estamos sendo vistos por esse Outro, mas ele está nos oferecendo uma produção de visibilidade e de imagens contínua, que funciona para o sujeito como oferta incessante de objetos para o desejo.
O mundo no qual e com o qual vivemos é hoje, predominantemente, esse que é trazido até o horizonte de nossa percepção, até o universo de nosso conhecimento pelos meios de comunicação, com destaque para a televisão. Trata-se de um mundo editado, no qual vivem os cidadãos. A realidade editada compõe a cultura na qual todos nos formamos. Aí está a interação comunicação / cultura, aí reside a conjunção comunicação / educação.
A presença dos media é um fator incontornável para os educadores. Sempre em números aproximados, há cerca de 40 milhões de lares com televisão no Brasil (quase 90% do total). Isso para uma população que lê pouco, dá à TV uma condição de monopólio da informação, ou seja, a TV monologa sem que outros meios lhe façam contraponto. Publicam-se, por ano, no Brasil, menos de três exemplares de revistas por habitante. Todos os jornais somados, que cresceram em circulação, tiveram uma vendagem em 1999 de 7,2 milhões de exemplares por dia, somadas bancas e assinaturas — o que é pouco quando se considera o tamanho da população. 98% da população entre 10 e 65 anos veem TV pelo menos uma vez por semana e, sozinha, a TV atrai duas vezes mais públicos do que todos os meios impressos, aí computados também os livros, além de jornais e revistas.
   José Mariano Bersch escreveu para o jornal Correio do Povo de 03 de abril de 2010 que “volta e meia aparece algum cientista apologista do caos, apregoando o mito da alienação social. Tenho dúvida. No dia 30/03, em torno das 23h, ruas praticamente vazias e o povo grudado na TV para acompanhar o final do ‘BBB 10’. Pouquíssimas pessoas alheias ao que estava se passando e, portanto, índice de ‘alienação’ quase zero. Conclusão: mito detonado” (pág. 04). Tempos modernos estes. Há até uma novela global com este nome, em que uma máquina comanda muita coisa, como outra que tem comandado o Brasil há várias décadas...
A alternativa talvez não seja a apocalíptica de negar a televisão, de não mais assistir ao seu bombardeio contínuo. A pergunta, porém, é justamente pela alternativa à midiocracia, pelo contraponto. Urge ler mais. Ler, ler muito, ler bem! Devem mesmo ser muito modernos esses tempos em que os paredões do BBB incitem tantos olhos e votos — em relação a estes, falou-se em 154 milhões somente na final. Talvez L. F. Verissimo se referisse também a isto quando disse acerca de nossa cultura que “quanto mais vaga, mais voga”.



Referências

BRITOS, V. C.; BOLAÑO, C. R. S. (Orgs.)  Rede globo: 40 anos de hegemonia e poder.  São Paulo: Paulus, 2005.
BUCCI, E. (Org.)  A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinquentenário.  São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.  
ARBEX Jr., J.  Showrnalismo: a notícia como espetáculo.  São Paulo: Casa Amarela, 2003.