
Por Rosane Nunes Becker [1]
Quando se discute educação básica muitas são as possibilidades de interpretações acerca do lugar da docência na constituição dos sujeitos culturais. Muitos teóricos afirmam que o papel do(a) professor(a) é fazer com que exista uma sociedade com um pouco mais de qualidade de vida. O desafio permanente é discutir, rever, refazer o sentido histórico de inovação e humanização do progresso, envolvidos na produção de uma memória histórica, e de sujeitos sociais que criam e recriam o espaço e a vida social.
O Educasul 2010 trouxe grandes contribuições teóricas especialmente por tratar sobre a escola, o ensino e a cultura docente. Segundo o palestrante da abertura do evento Mariano Fernandez Enguita o acesso à informação é um fenômeno cada vez menos exclusivo da escolarização. Ele acredita no potencial da escola para o fomento de novos modos de olhar e interpelar a informação a que temos acesso pelos mais diversos e apelativos meios e para a convivência na diversidade das sociedades. Ainda que a escola não esteja preparada para este novo tipo de cidadania, reconhece-lhe, aqui, uma função crucial por corresponder ao primeiro lugar de aproximação à diversidade existente e crescente na sociedade global, uma aproximação sistemática e prolongada das crianças e, por outro lado, por proporcionar, diferentemente do contexto familiar, a primeira experiência com a coerção e autoridade impessoais necessárias e inevitáveis para a convivência em sociedade.
O papel da escola será consolidar essa consciência, potenciar os valores de solidariedade e de democracia que possam sustentar a criação e atuação de instituições globais de mediação, de arbitragem dos conflitos, de controle dos movimentos econômicos, de proteção dos direitos humanos, de intervenção em situação de emergência.
Enguita enfatizou a importância da relação entre a família e os professores. Tempos atrás, as famílias aceitavam a autoridade do professor como legítima e indiscutível. Hoje em dia as famílias têm níveis tão ou mais elevados do que os profesParasores, chegando a discutir as suas decisões e a questionar a sua capacidade e desempenho profissional. Expressa o seu sentimento de discórdia com a acusação de desinteresse que é feita às famílias. O mais importante não é “saber de quem é a culpa” – se são os pais que deslocam as suas responsabilidades para as escolas, pedindo-lhes em demasia ou se é a escola que tem vindo a abdicar da função de educar no seu todo, oferecendo pouco –, mas compreender que estas duas instituições estão sozinhas nesta tarefa, pelo menos naquelas que são as suas funções principais, e que, por isso, têm de encontrar novos modos de cooperação.
Segundo Enguita, a escola como organização exige uma nova atitude por parte dos professores, uma atitude de compromisso com o conjunto da organização e com os seus fins, uma atitude pró-activa e de disposição para a cooperação, quer com os restantes professores, quer com a comunidade educativa alargada. Exige, também, uma direção que efetivamente dirija e contemple, através do conselho escolar, a participação (real) da comunidade.
Para Gaudêncio Frigoto a ação e a profissionalização docente são constituídas de muitos obstáculos e desafios. É preciso delimitá-los e compreendê-los buscando, desta maneira, formas para sanar as dificuldades, através de suas experiências reflexivas, questionando cada uma de suas ações, de seus caminhos, de suas escolhas, quais razões o levaram a adotar ou rejeitar o seu agir.
É importante compreender o que estamos fazendo a nós mesmos, problematizar a aceitação da vontade de ser conduzido por outro, bem como, é preciso uma atitude de invenção de si mesmo. O primeiro momento deste processo ocorre na fase em que o professor se volta para dentro de si, alterando desde a sua forma de abordagem de olhar para os alunos, até buscar formas de dar sentido às horas despendidas em sala de aula. O professor reflexivo busca combater o comodismo, a passividade ou o desinteresse através do auto-questionamento. Assim que o professor assume um comprometimento profissional e uma postura autônoma, capaz de tomar decisões e de ter opiniões, ele se torna um indivíduo que interpreta e adapta a sua própria atuação aos contextos em que trabalha. O educador quando reflete, desperta o gosto e o sentido pelo saber, tornando-se, conseqüentemente, mais autônomo na sua prática.
Newton Duarte, da UNESP, diz que o trabalho educativo é uma atividade intencionalmente dirigida, diferente de formas espontâneas de educação. Há de se considerar alguns aspectos das teorias que trazem conseqüências negativas ao exercício da docência. O primeiro é o das teorias "crítico-reprodutivistas" É sabido que essas teorias não apresentam propostas relativas ao que-fazer do trabalho educativo, posto que consideram que o trabalho no interior da escola está irremediavelmente condenado a reproduzir as relações sociais de dominação. Um segundo exemplo em relação ao ato de ensinar é o da pedagogia da Escola Nova. Contrapondo-se à Escola Tradicional, que tinha como centro do processo educativo a transmissão de conteúdos pelo professor, a Escola Nova teve como centro do processo educativo o aluno e o ato de "aprender a aprender". O terceiro exemplo seria o das concepções pedagógicas que, como no caso do Construtivismo, respaldam-se em teorias psicológicas que valorizam as aprendizagens que o indivíduo realiza sozinho, como qualitativamente superiores àquelas onde o indivíduo assimila conhecimento através da transmissão de outras pessoas.
Para Duarte é interessante notar que tanto no Construtivismo como na Escola Nova, estas pedagogias tiveram equívocos ao verbo ensinar e a expressão "transmissão de conhecimentos", já que, o professor é reduzido a um "animador". Adotando uma posição polêmica em relação a essas concepções negativas sobre o ato de ensinar e buscando contribuir para a construção de uma concepção educacional que adote um posicionamento afirmativo sobre o ato de ensinar, grupo de estudo da UNESP aprofunda o debate sobre a questão aproximando a pedagogia histórico-crítica e a psicologia histórico-cultural, também conhecida como Escola de Vygotsky.
Além das denominações "socioconstrutivismo", "sociointeracionismo" e "sociointeracionismo-construtivista", a Escola de Vygotsky foi chamada no Brasil também de "construtivismo pós-piagetiano" (Grossi e Bordin, 1993). Que para Duarte, nenhuma dessas denominações aparece nas obras de Vygotsky, Leontiev, Luria, Galperin, Elkonin, Davidov, ou qualquer outro membro dessa escola. Esses autores preocuparam-se sempre em caracterizar essa psicologia naquilo que ela tem de diferenciador em relação a outras, ou seja, sua abordagem histórico-social do psiquismo humano. Por essa razão, as denominações que eles mais utilizaram para se autocaracterizarem foram a de teoria histórico-cultural e a de teoria da atividade, sendo esta segunda denominação empregada para caracterizar especificamente o trabalho de Leontiev e seus seguidores.
O interacionismo é um modelo epistemológico que aborda o psiquismo humano de forma biológica, ou seja, não dá conta das especificidades desse psiquismo como um fenômeno histórico-social. Com isso, estamos defendendo que a psicologia histórico-cultural não é uma variante do interacionismo-construtivista.
Muito citado pelos demais palestrantes foram as idéias de Bourdieu que compreende a relação de comunicação pedagógica (o ensino) como uma relação formalmente igualitária, que reproduz e legitima, no entanto, as desigualdades sociais. O argumento do autor é o de que a comunicação pedagógica, assim como qualquer comunicação cultural, exige, para a sua plena compreensão e aproveitamento, que os receptores dominem o código utilizado na produção dessa comunicação. Para ele, esse domínio variaria de acordo com a maior ou menor distância existente entre o arbitrário cultural apresentado pela escola como cultura legítima e a cultura familiar de origem dos alunos. Para os alunos das classes dominantes, a cultura escolar seria a sua própria cultura, reelaborada e sistematizada. Para os demais, seria uma cultura “estrangeira”.
O EDUCASUL foi um grande evento que oportunizou conferencias, palestras, mini-cursos, pôster e comunicações. Participaram do evento: Gaudencio Frigoto (UERJ), Mariano Fernandez Enguita (Espanha), Renato Bini (CTBA), Leda Scheile (UNOESC), Jane Felipe (UFRGS), Newton Duarte (UNESP), Selma Garrido Pimenta e João Luiz Gasparin da UEM/PR e outros. O que fica é que enquanto professores, o percurso da cultura e das memórias/narrativas dos sujeitos que da escola participam ainda há uma longa distancia. Resta acreditar nos processos de estudos e na reflexão cotidiana sobre o lugar da docência na constituição dos sujeitos.
[1] Professora do Curso de Pedagogia da UNIJUI, Diretora do Centro de Educação Básica Francisco de Assis. Participou do EDUCASUL 2010 de 21 a 23 de julho, em Florianópolis/SC que teve como tema “Lugares e Desafios da Docência na Educação Básica”.