
Por Edite Sabbi Porciuncula[1]
Alguns fatos são inegáveis. Os alunos de hoje são mais agitados, bem mais informados e diferem radicalmente dos alunos de décadas atrás. Muitos teóricos da atualidade, entre eles Oliveira (2009) tem chamado as novas gerações de “Geração Y”, por serem nativos das novas tecnologias, que possibilitam o virtual em tempo real, com escolhas infinitas que permitem, a cada um, o cultivo de sua subjetividade e um modo mais acelerado de pensar e agir. Isso nos dá, não só uma sensação, mas uma consciência de “incontrolabilidade”, o que aumenta nossa responsabilidade como professores e mediadores na busca de suporte e direção para seus caminhos, ampliando a construção de nossos conceitos, ou seja, “transformando” as informações em conhecimentos.
Como educadores temos o compromisso de interferir, mediar e sugerir caminhos a nossos alunos, na maioria apaixonados por computadores e outros suportes eletrônicos, cada vez mais complexos e sofisticados. Mas como não se apaixonar por tudo isso? Reconhecemos o extraordinário e fascinante poder dessas máquinas. Precisamos romper nossas limitações, superando a dificuldade de interagir com as novas tecnologias, confrontando-nos com suas múltiplas possibilidades, bem como com suas ambigüidades. No entanto, este confronto exige abertura para desenvolvermos novas habilidades.
As habilidades com perspectivas de formação humana, indispensáveis ao cidadão do século XXI, continuam sendo: ler, escrever e contar, salientando que, diferente do que antes do advento das novas tecnologias em nossa sociedade, hoje a criança não aprende mais por obrigação ou exigência da família ou do Estado, mas pela necessidade de interagir com os aparatos tecnológicos que já fazem parte da cultura infantil e, sem dúvida, serão seus parceiros pela vida afora, o que a motiva a desenvolver-se (Demo, 2008). No entanto, além destas habilidades indispensáveis, “novas alfabetizações” são esperadas, para que adultos e crianças possam aderir e usufruir da fluência tecnológica que se expande em ritmo cada vez mais acelerado. O autor evidencia que a alfabetização se tornou plural, necessitando-se de “multi-alfabetizações”, porque são muitas as habilidades esperadas para enfrentar a vida e o mercado de trabalho.
Para Demo (2008), uma necessidade que se impõe a nós professores é a superação do modelo tradicional do texto impresso, hoje ampliado para suportes eletrônicos virtuais, cada vez mais voltados para imagens e animações, permeadas de plasticidade e flexibilidade. Neste sentido, faz-se imprescindível a alfabetização digital, a qual permitirá dar conta dos desafios que tanto o computador como as redes telemáticas nos oferecem. Decorre daí, a necessidade permanente de “aprender a aprender”, com especial atenção para a capacidade de questionar nossas aprendizagens, se tivermos interesse em acompanhar as demandas. Esta nova geração passa o tempo todo conectada com os amigos, mandando mensagens de textos virtuais ou interagindo em redes sociais. Ora, há de se supor então, que será natural para a “Geração Y” o trabalho com textos acadêmicos em suas telas, de pesquisas antes concretizadas em livros, hoje feitas em sites de busca; enfim, questões a serem mediadas pelos educadores, que vão desde a leitura em formatos eletrônicos mais amigáveis (como o “.pdf”), passando pelos livros digitais, sem nos esquecermos do critério que deve pautar tais buscas ao conhecimento na rede.
Sim. Esta geração cibernética está a “um clique” das melhores pesquisas, com os melhores conteúdos educacionais. Mas, como a internet é um retrato do mundo, também está a “dois cliques” não só das piores fontes de informação, mas sobretudo da sordidez da nossa sociedade. Questões para a reflexão nossa, mediadores no processo.
Ao discutir a importância decisiva das habilidades necessárias para educar no século XXI, Demo (2008), reconhece cinco horizontes no espaço infinito de potencialidades digitais:
Com o enfoque das mudanças que aperfeiçoam a habilidade de “saber pensar e criar”, temos a possibilidade, por exemplo, que a ferramenta Wiki proporciona, revolucionando a redução de fronteiras na construção multidisciplinar de conteúdos, seja na empresa, na universidade, na sala de aula virtual, em que cada colaborador acrescenta ou modifica um conteúdo já existente. Tudo, é claro, demandando critério de edição.
Demo sinaliza que, “talvez o horizonte mais atraente - embora não automático - seja o da autoria: professores autores, também por conta da fluência tecnológica, podem mais facilmente forjar alunos autores” complementando que é fundamental “cuidar que os estudantes aprendam a pesquisar e a elaborar seus trabalhos com maior desenvoltura, fazendo da internet a plataforma mais à mão do manejo crítico e autocrítico da informação” (2008, p. 7). A dificuldade que nós professores temos de ser autores, deve-se ao fato de termos sido educados via transmissão e não via construção de conhecimento, lacuna esta, que precisamos suprir de forma sempre renovada, para atender às expectativas de nossos alunos, tendo presente que continuamos sendo o ponto estratégico da escola para qualificar a educação. Necessitamos por isso, da permanente reelaboração de nossos conceitos, para podermos nos envolver com a aprendizagem do aluno, orientado-o, motivando e questionando-o, com uma postura de sujeito participativo e autor. Ser professor autor exige que superemos o anúncio de um futuro a ser criado, política, estética e eticamente e o tornemos realidade aqui e agora, criando um novo presente.
O novo, o surpreendente que as novas tecnologias nos apresentam diariamente, tem demonstrado que várias linguagens ganham vida virtualmente, abrindo caminhos que promovem as “multi-alfabetizações” mencionadas por Demo. No entanto, não podemos descuidar de proporcionar situações diversificadas de materiais, suportes e situações-desafio, propiciando a possibilidade de realizar ações para além da dimensão virtual e das simulações que a rede proporciona. Sendo assim, todo o conhecimento físico e real é importante para desenvolver a sensibilidade de ver, ouvir, sentir, manusear, ir além do “abscreto”, termo usado pelo pedagogo da era virtual Paolo Lollini (1991), para a “simulação” do concreto, que as imagens virtuais, mesmo em terceira dimensão oportunizam.
Neste sentido é importante destacar que a profusão de imagens que invadem nosso mundo real, através do mundo virtual, exige que se dê especial atenção à educação do olhar, porque o olhar do aluno, mediado pelo conhecimento do professor, seleciona, associa, organiza, analisa, constrói, desconstrói e saboreia as imagens, desenvolvendo o espírito crítico necessário para interagir com a crescente fluência tecnológica, o que dá sentido à nova dinâmica educativa que ela proporciona.
A possibilidade de inserção de objetos educacionais em canais como o Youtube ou o Slideshare veio para repaginar conceitos, quebrar paradigmas. Tais canais, mediados por nós, educadores, renovam a questão midiático-pedagógica: alunos e cidadãos comuns passam a acessar links que levam a conteúdos enriquecedores.
A nós professores, cabe ditar o ritmo de nossas aulas, o que exige habilidade no modo de conduzir a ação educativa, de acolher, perceber e respeitar o ritmo de cada aluno, incentivando e valorizando seus pontos fortes, especialmente aspectos como iniciativa, coragem, dinamismo, empatia, capacidade de lidar com a diversidade e facilidade de relacionamento, enfim cultivar a desenvoltura para transitar por diferentes caminhos. Essa é uma tarefa complexa, à qual precisamos estar sensíveis, pois o uso da tecnologia tem que ser pautado pela idéia de conquistar o aluno para a causa do conhecimento.
A partir da necessária interatividade com os aparatos tecnológicos e do desenvolvimento das habilidades que a fluência tecnológica exige, configura-se a racionalidade da educação no século XXI, fruto da interação “educador - educando”, que busca a participação ativa, a argumentação e a intersubjetividade na pluralidade de saberes, em que as discussões buscam formas alternativas de organização espaço-temporal, auxiliando na superação da fragmentação disciplinar e linear de se conceber a educação, visualizando perspectivas intercomplementares para a vivência e convivência com nosso mundo real e virtual, como sinaliza Marques (1999),
Referências Bibliográficas:
DEMO, Pedro. Habilidades do Século XXI. B. Téc. SENAC: a R. Educ. Prof., (RJ), v. 34, n.2, maio/ago. 2008.
LOLLINI, Paolo. Didática & Computador. Companhia das Letras. (SP). 1991.
MARQUES, Mario Osorio. A escola no computador: linguagens articuladas, educação outra. Ijuí: Editora Unijuí, 1999. Coleção Fronteiras da Educação.
OLIVEIRA, Sidnei. Geração Y, Era das Conexões: tempo dos relacionamentos. Clube de Autores, (SP). 2009
[1] Mestre em Educação nas Ciência pela UNIJUI. Professora do CSCJ-Ijuí (RS). Professora –tutora na área de Educação do FGV Online (RJ).