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Era uma vez um menino que adorava História

Ítalo em viagem de estudos com os alunos
Ítalo em viagem de estudos com os alunos
Publicada em 16/11/2010.

Ele tem muita disposição em relação a profissão escolhida, está plenamente realizado mesmo em uma de suas primeiras experiências profissionais. Recém-graduado em História, pela Unijuí, defende e demonstra paixão por um campo do conhecimento que, cada vez menos, chama atenção de alunos e postulantes ao Ensino Superior. Vindo de uma família com vários advogados, Ítalo Drago até fez vestibular para tentar a carreira jurídica, mas logo mudou os planos e seguiu a bússola de seus sentimentos mais sinceros. “O Direito foi pela questão familiar e também por ganhar dinheiro. Mas eu pensava que advogados existem aos montes e eu não queria ser só mais um. Sempre gostei de História, desde os tempos de colégio, tinha professores muito bons e sempre gostava muito de conversar com eles. E acho um curso mais politizado que o Direito, não que o Direito não seja, mas a História tem mais este viés. Então, eu me achei mais dentro disso, me formei e pretendo dar continuidade daqui mais um tempo para esse caminho”.

É este posicionamento forte e o bom humor o que mais chama atenção no professor de História do Colégio Sagrado Coração de Jesus (CSCJ). Como se diz pelas bandas de São Borja, sua terra natal, é de se pensar ‘como se sai um guri desses em sala de aula?”

ENTROSAMENTO – Ao pensar em História pode, geralmente, vir à cabeça a imagem de alguém mais velho, falando sobre coisas igualmente desbotadas pelo tempo. Ítalo até concorda com a existência deste preconceito, mas leva na esportiva e prova que as coisas podem ser bem diferentes e as aulas muito mais atrativas. “A minha parte é tentar relacionar os assuntos históricos com a atualidade, para eles não ficarem perdidos no tempo; mostrar qual a influência disso hoje. Quando a gente estava falando em Revolução Francesa, por exemplo, surgiram os conceitos de Direita e Esquerda. O que era isso? Tentei dar uma forma a isso... O fato de eu ser novo, eles ficam meio assim: um cara novo! Mas eu sempre gostei disso”, diz o professor que tem consciência de que a proximidade de sua geração com a de seus pupilos não deve significar  igualdade de poder ou autoridade. “Com eles eu me relaciono muito bem. Claro que eu acho que poderiam se relacionar melhor com a questão do conteúdo, porque, como sou um cara muito novo eles acham que eu vou levar eles mais na boa. Mas a gente dá uma chamada mais apertada para não deixar que fiquem por conta. Ainda tem que colocar um limite - tudo bem que eu seja mais novo, mas não quer dizer que possam fazer o que quiserem, tudo tem o seu limite. Eu falo muito para eles e tento dar uns conselhos. Às vezes vindo de alguém mais velho eles não levam muito a sério, mas alguém mais da idade deles  já prestam mais atenção”, analisa Ítalo.

AS COISAS DO PASSADO – Se, em um dado período da história de nossa educação, ensinar História era repassar aos estudantes verdadeiras bravatas, contos, estórias ou fatos reais extremamente alegorizados ao sabor de quem tinha mais poder na sociedade, hoje as coisas mudaram e Ítalo aprova uma visão histórica para além de heróis e grandes feitos. O jovem professor vivenciou estas grandes diferenças estando na escola e, depois, nos bancos universitários. “O que  os professores passavam no colégio fugia um pouco. Quando vamos estudar na graduação de História vemos que é tudo um mito para tentar alienar o povo, tentar forjar um herói onde não tem. É forjar assassinos em heróis como vários casos aqui no nosso estado e no Brasil. Um exemplo é o Moreira Cesar. Ele foi um cara que veio aqui no Sul para degolar, na Revolução Federalista. Foi morto em Canudos pelo bando do Conselheiro e depois foi alçado ao ponto de Herói Nacional. Na escola a gente olhou o filme de Canudos e nos passaram a idéia de que ele foi lá, como um bom, levou um tiro e acabou morrendo – por isso, herói. Tanto que tem várias ruas com o nome dele, exemplifica o professor, sem disfarçar sua grande indignação.

A formação crítica que obteve na universidade, no entanto, apenas reforçou e deu argumentos a valores e ideais vindos de casa. “Eu tinha, desde criança, aquela ideia mais de esquerda e na História reforçou. Eu sempre tive isso, sempre achava estranha a forma como se davam as coisas, principalmente a partir da mídia. Depois que entrei no curso vi que realmente os caras fazem tudo para alienar e construir as imagens”.

O CRÍTICO E O PROFESSOR – Com uma postura crítica realçada pelo frescor de uma juventude militante, estar em sala de aula é, também, um exercício para Ítalo. A visão de mundo e interpretação que o professor tem, nem sempre podem ou devem ser repassadas para os alunos dentro  da escola. Ítalo tem plena consciência e dedica-se ao máximo para equalizar a questão ao Ensino de História. Eu procuro ser bem prudente. Até pela forma de ensino que a escola proporciona. Uma série tem os ciclos econômicos e sociais, a outra  tem o período administrativo do Brasil e na outra tratamos mais da História a partir do Capitalismo e Socialismo. Então, tem que explicar  isso de uma forma que não vá expor  o meu posicionamento pessoal, ser o mais imparcial possível. Às vezes é difícil, mas tu tens que ser. Por exemplo, nas eleições, quando os alunos me perguntavam em quem eu votei, eu disse que o voto é secreto”, diz o professor, fazendo uma análise do lugar em que encontra-se em paralelo às experiências anteriores que teve, em salas de aula do Ensino Público. “Numa escola de nível médio e médio alto, tu não podes chegar e falar tudo. O retorno e as cobranças dos alunos e pais de alunos é bem maior. Mas isso é bom, até para se policiar e não falar algumas coisas sem pensar, apenas criticando. Tem que expor bem os fatos. Eu procuro mostrar para os alunos várias alternativas para que eles interpretem. Se eles quiserem levar isso a fundo, tudo bem; se não quiserem, eu também respeito a opinião dos alunos”.

AS AULAS – Vencidos todos os grandes desafios que se apresentam a um educador em início de trajetória, fica o giz, o quadro negro e muita dedicação. Ou, ao menos muita dedicação e alguns outros instrumentos mais modernos... Tudo é válido para ensinar causando interesse e interrogações. “É tentar expor de uma forma mais crítica. Com os menores, tem que explicar o como e o porquê das coisas terem acontecido. Um exemplo é a viagem que a gente fez agora para Pelotas e Rio Grande, conhecemos uma charqueada e vimos também sobre a escravidão no Estado. Porque, tradicionalmente, parece que a escravidão no RS acabou antes de no Brasil, sendo que é comprovado hoje, por vários documentos, que a escravidão no Sul foi até o fim do período mesmo. Todos esses charqueadores tinham escravos até o fim de sua produção”, explica o  professor que não se cansa de falar quando o assunto é o que ele ensina e como ensina a suas turmas. “Às vezes eles cansam, porque o conteúdo de História é um conteúdo mais cansativo, tem muita atividade me quadro, em caderno, em folha e power point. Agora, na questão da II Guerra, por exemplo, eu estou usando muito vídeo, uso documentários para eles poderem entender como é que funciona. Já com a 6ª série, no Ciclo do Café, a gente faz umas demonstrações. A gente mostra o  ciclo da produção, traz um café na sala, mostra o produto final.”, explica o professor.

A CERTEZA - A conversa que gerou esta matéria foi feita apenas alguns dias após o retorno da  viagem de estudos citada. Apesar das muitas horas de estrada, do trabalho puxado e tudo que pode significar estar responsável não só pelo conhecimento de cerca de 60 alunos, mas por eles em sua integralidade, o professor exibia bom humor e disposição. “Eu me sinto feliz. Eu gosto muito de ser professor. Claro que professor não vai ficar rico, mas também não vai passar necessidade. Acho que dá para viver e o ensino privado paga melhor, ainda. Digamos que eu me achei, naquilo que eu gosto. Tem os dias do cansaço, mas é bom! Eu não me arrependo de ser professor, de ter largado o curso de Direito para ser professor de História, eu fico bem contente. Estou realizado profissionalmente e pretendo continuar, mais adiante fazer outras formações, pós-graduações e continuar com meus alunos”.

Josei Fernandes Pereira
Grande camarada Ítalo!! Fico feliz ao ver os velhos confrades dos bancos da universidade ocupando os espaços escolares com boas idéias, vontade de sobra e disposição para fazer a sua parte na nobre tarefa docente! Um forte abraço amigo, conte comigo para o que precisar!