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João de Almeida Neto - um artista "Boca-Braba"

Publicada em 14/04/2011.

 "Meu apego à palavra e minha admiração pela poesia são tão grandes que em vários momentos de minha atividade artística fui impelido a escrever. Várias circunstâncias sentimentais, políticas, sociais, etc., me induziram a compor. Senti, mesmo sem ser poeta, a necessidade de me expressar como artista e cidadão,  e o fiz sempre com a sinceridade dos autênticos. Inspiram meu cantar o homem, seu trabalho, suas circunstâncias. Mesmo sem ser um cantor romântico, cantei canções de amor. Assim, me valho da poesia para ser cantor. Minha esperança de chegar ao coração de quem me escuta está no poder da arte da palavra.” 

De berço, João de Almeida Neto canta opinando, a fazer “misturas bonitas de ideias cosmopolitas  com sotaque de fronteira”. Natural de Uruguaiana e com algumas incursões pelo samba e pelo tango, além de ser uma das melhores – e mais altas – vozes poético-político-musicais do cancioneiro gaúcho, o cantor é conhecido pela expressão de sua autenticidade e opiniões fortes, tanto no verso quanto no cotidiano, característica que lhe rendeu o apelido de “Boca-Braba”. Essa personalidade marcante é que o traz mais uma vez a Ijuí no dia 30 de abril, quando estará sendo a grande atração da 2ª Festa do Trabalhador na Educação, evento alusivo ao 1° de Maio, a ter lugar na Estação da Mata, a partir das 21 horas, promovido pelo Sinpro-Noroeste, Sinteep, 31° Núcleo do CPERS e Associação dos Professores Municipais de Ijuí (APMI), com o apoio da CUT – Regional Noroeste.

Nesta entrevista, conheça um pouco mais sobre este grande compositor/intérprete do cancioneiro gaúcho-brasileiro-latino-americano com o qual o povo gaúcho se identifica por sua voz, jeito altivo de se expressar e pela importância que dá à cultura gaúcha e nacional; depois, retire seu ingresso antecipadamente (limitados) na Secretaria do Sinpro-Noroeste até o dia 27 e comemore o 1° de Maio em alto astral.

1.   Fale um pouco de sua infância e das influências recebidas para a sua carreira: festivais, pessoas, ideais.

                              Nasci em Uruguaiana, me criei no Touro-Passo, distrito a 30 km da cidade. O primeiro músico que vi na minha vida foi Irineu, chamado de Negrinho, peão de campo na estância de um tio. Quem me ensinou a tocar violão foi um vizinho, chamado João Carlos Bruns Chavasco, apelido “Peitinho”. O gosto e a vocação pela música foram solidificados por professores, nas escolas onde estudei, na minha cidade. Tenho influência de cantores como Nelson Gonçalves, Alfredo Zitarrosa, Charles Aznavour. Participei de todos os festivais nativistas que aconteceram.

 

2.   Como você avalia sua carreira? Tempo de estrada, momentos mais importantes, conquistas, frustrações?

                              Minha vida musical é positiva e compensadora. Conquistei muita coisa através da arte, inclusive a minha formação profissional de advogado. Tenho cerca de 30 anos de vida artística. Não tenho frustrações. Algumas inconformidades não chegam a tanto. A desunião dos artistas, o pouco caso aos direitos autorais, enfim, são coisas que me incomodam. De grave mesmo, apenas alguns músicos que se empoleiram em cargos públicos, mediante a bajulação política, para formarem seus clubinhos e retalharem os que não se moldam a essa prática nojenta.

3.   Comente sobre a herança de “Fierro” para um cantar opinando “Boca-Braba” e principais sucessos enquanto intérprete e compositor.

                         Realmente, é influência de ideais como o de Hernandez que me deram essa personalidade. Mais diretamente, Zitarrosa, cantor uruguaio. As músicas que me deram notoriedade foram, principalmente, Vozes Rurais, Nova Trilha, As Razões do Boca-braba, Definição do Grito, Florêncio Guerra, entre outras.

4.   Como é a relação entre música e cultura e qual a sua avaliação da importância de ser um cosmopolita com sotaque de fronteira?

Eu quero continuar falando português (com sotaque da fronteira), tomando chimarrão, comendo churrasco e escutando milonga... A música, para mim, é a mais bela de todas as artes, e o mais importante e eficiente instrumento da cultura. A universalidade e o cosmopolitismo só têm beleza e valor quando têm origem na cultura própria. A imitação e a generalização das culturas é sinal de personalidade fraca. Como dizia Tolstói: “Canta a tua aldeia e serás universal”.

 

5.   Como você vê o monopólio da globalização e as diversas e diferentes culturas?

Ao contrário do que prega o pensamento dominante no mundo globalizado, acredito que a diversidade cultural é que dá colorido ao universo e mantém a independência dos povos. Não comungo desta inteligência moderna que dita a unidade e padronização cultural. Mormente porque a cultura escolhida para ser padrão é a dos outros e não a nossa. Não encontrei motivos para compreender por que o mundo deve ter apenas uma linguagem, uma maneira de vestir, de comer, de dançar, e que o gosto pessoal de todos os seres vivos deve ser balizado por um referencial ditado sei lá eu por quem.

 

6.   Há muito de colonialismo no “pensamento único” e de “revolucionário na resistência dos regionalismos?

Vale dizer que esta investida dos colonizadores culturais não é novidade na história da humanidade. O pioneirismo talvez se deva creditar a Roma. Júlio César, depois Napoleão e mais recentemente Hitler, tentaram impor seus modelos ao mundo e, sem exceção, sucumbiram ante os povos que pretenderam subjugar, mas que gostavam de adorar seus próprios deuses, falar sua própria língua, comer sua própria comida e ouvir sua própria música. Tenho comigo que tal pensamento unímono não tem diretrizes culturais, nem ideológicas, mas econômicas. Baseia-se no conceito de que o mundo é um grande supermercado, onde os homens, desprovidos de sentimentos, caráter ou personalidade, são meros consumidores. Admiro as manifestações de cunho regionalista. Elas são as expressões voluntárias dos diversos mundos espalhados pelo mundo. Retrata as atividades, os sentimentos e o caráter dos povos. O mundo só é assim, grande e belo, porque em cada rincão do planeta existem homens conscientes de que é sobre nossas peculiaridades culturais que devemos construir nossas casas, nossas cidades e nossos Países. Podemos concluir que Movimentos desta natureza revestem-se, inclusive, de certo caráter revolucionário, porquanto sejam um foco de resistência à dominação intelectual e cultural. Através do Nativismo cantamos, difundimos e mantemos nossa identidade. Somos nós mesmos. Realçamos nossas vocações e traçamos nossos destinos, livres e espontaneamente.

 

7.   Como você avalia a situação do cancioneiro gaúcho e os incentivos e investimentos em novos talentos?

                              Existem, mas são insuficientes. Não há políticas públicas nesse sentido. Somente os amigos do rei se beneficiam do Estado. Aliás, do ponto de vista da administração pública, a cultura, na maioria das vezes, é administrada por gente que nunca recebeu uma salva de palmas.

 

8.   Como você concilia a atividade artística com a advocacia, a casa (casado com a juíza Jane Maria Köhler Vidal) e o envolvimento “cordial” com o Grêmio?

                              Tranquilo... há tempo pra tudo.

9.   Qual a importância da ideologia “Boca-Braba” na escolha e na difusão de trabalhos como “Nova Trilha”, “O meu país”, “Florêncio Guerra e seu cavalo” e mesmo “As razões do Boca Braba”?

                         Mostrar o senso crítico do artista, que não deve servir apenas para distrair e alegrar, mas também formar e construir.

10.              Que projeto está em curso e que ambição/sonho você acalenta e pretende realizar mesclando o regional gaúcho com o popular brasileiro e o cancioneiro latino-americano?

                         Esse negócio da música popular brasileira foi uma coisa que sempre me cobraram. No ano passado, criei o show “GAÚCHO TAMBÉM CHORA”, onde canto chorinhos, sambas e tangos. Foi aprovado pela Lei Rouanet e estarei ampliando no decorrer deste ano.

11.              O que você pensa da possível/provável extinção da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana? Há como salvá-la?

                              Lamentável. Se há como salvá-la???? Claro... é a maior barbada. Com muito menos do que se gasta no carnaval fora de época se faz uma bela edição da Califórnia.

12.              No 30 de abril você tem uma confraternização alusiva ao 1° de Maio, com sindicalistas e professores do ensino privado de Ijuí (Sinpro-Noroeste), funcionários do ensino privado regional (Sinteep), professores estaduais (31° Núcleo do CPERS) e professores municipais (APMI), com o apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT – Regional Noroeste): como você vê essa agenda e o que dela espera?

                         Vejo com muito respeito e carinho. Espero o que sempre encontrei aí em Ijuí. Um público apreciador da arte e da música. Tenho vários amigos e uma relação afetiva com a cidade, através deles. Já estive muitas vezes aí e sempre foi assim. Em Ijuí, me sinto em casa. Aguardo todo mundo no dia 30, na Estação da Mata, para saudar o Dia do Trabalhador.

Para conhecer mais sobre a vida e a obra de João de Almeida Neto, clique aqui.

Clique aqui para ouvir “O meu país”.