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O que é uma criança?

Publicada em 28/09/2011.

A pergunta tem me assombrado. Não pela resposta óbvia, é claro. Afinal, aparentemente, todos parecem saber o que é uma criança, certo? Errado. Não se trata de saber ou não o que é uma criança, mas das formas como se responde a esta pergunta de maneira não verbal ou intelectual. Em outras palavras, como se responde a isso com ações. Não estou falando do ECA, nem tampouco das crianças que a maioria dos leitores aqui pode encontrar quando leva seu filho a uma festinha de aniversário. Falo das crianças dos sinais, do crack, do assalto à mão armada, das crianças com outras nos braços, das que agridem seus pais, das que matam professores…
Mas isso você já leu, você já viu, você já sabe. Vou tentar, então, não ser óbvia e trazer à tona o que me assombra.

Criança é, com toda certeza, uma realidade biológica. Um filhote de mamífero, dos mais desprotegidos que pode haver na natureza. E, sem sombra de dúvida, dos mais lentos em aprender a garantir sua sobrevivência. Uma boa parte dos animais leva, quando muito, uma estação, poucos levam anos. É o caso dos filhotes de humanos que não tem pêlos para se proteger do frio, nem garras, nem espinhos venenosos e demoram muito a ter dentes. Esses filhotes dispõem apenas, para sua proteção, de um dos berros mais poderosos que se tem notícia, mas, como se sabe tristemente, também podem ser facilmente silenciados.

Pensar em termos biológicos, no entanto, engendra uma segunda pergunta. Até quando se é criança? A biologia quer marcar suas respostas com hormônios. E eles são importantes, com certeza. Contudo, a resposta é, provavelmente, de cunho muito mais cultural, psicológico e, certamente, histórico.

Duas leituras já clássicas e ao alcance do grande público – “História Social da Criança e da Família”, de Phillipe Ariès; e “História da Criança no Brasil”, organizado por Mary Del Priore – são textos suficientemente eloqüentes para se perceber que: 1. criança é um “bicho” moderno; 2. só é reconhecido bem recentemente. Esse reconhecimento tem gerado um amplo discurso de proteção infantil, no qual é fácil nos engajarmos. Porém, com a mesma facilidade, esse reconhecimento é tirado ou, ao menos, relativizado.

Criança, neste último ponto de vista, é quem se comporta como criança ou da forma que nossa cultura entende o ser criança. Pede permissão, faz birra, e, claro, é inocente (o entendimento disso é amplo). Coisas como uma arma na mão ou a existência de uma vida sexual retiram o estatuto de “ser criança” das crianças. Horrorizamos-nos com essa “morte” da inocência, mas nossas rações mesclam pesar com foros de animais acuados, que é o que somos diante de um universo social que, não raro, nos choca.

Em todas as notícias que, nas últimas semanas, interligaram violência e crianças – como algozes e não como vítimas (se é que existe um momento em que elas não são vítimas do mundo em que as fazemos viver) – as reações foram de choque, de incompreensão e de imensa dor. Não se quer um mundo assim, ninguém quer. Eu me solidarizo com cada um destes pasmos expressos diante da triste realidade que joga nossas crianças na violência e na morte. Contudo, as reações não são novas. Muitas vezes elas repetem chavões que condenam a juventude. Coisas como: “onde esse mundo vai parar?”; “os jovens não querem nada com nada”; “isso é falta de autoridade”; “imagine quando forem adultos”. Não são frases novas. Se puxarmos um pouco pela memória nos lembraremos de ouvi-las quando nós éramos jovens, quando nós éramos crianças. De fato, é possível encontrá-las, inclusive, em escritos gregos e romanos da antiguidade. Humanamente nos parece muito difícil lidar com as crianças e os jovens que não correspondem ao que queremos deles.

Talvez, isso seja ainda maior. Pois não se trata de um conflito apenas geracional, se trata do reconhecimento claro que, em nossa jornada no planeta, ainda não atingimos o ponto em que temos condições de proteger nossas crianças, mantê-las a salvo. A salvo das drogas, dos abusos, da dor, da própria raiva que pode atingir proporções desmedidas.

Tenho me assombrado com a raiva que isso gera. Não apenas nas crianças, mas em nós. De repente, o pequeno debochado, violento, autoritário é um inimigo, que tem nosso tamanho e, por vezes, mais experiência na dor que nós mesmos. Então, nossa impotência e terror, nossa tristeza e medo nos fazem gritar por uma autoridade maior. Por alguém que faça alguma coisa! Alguém que impeça o mundo ir para onde está indo (e, pelo visto, não temos a menor ideia de para onde é).

Eu realmente entendo essa reação. Sei o que sentem os professores ameaçados, sei o que sentem os que fecham os vidros do carro, sei o que sentem os que temem pela própria vida ao cruzar por um bando juvenil numa rua noturna ou mesmo à luz do dia. Eu apenas não sei se a resposta é pedir uma ação mais carcerária e violenta dos poderes públicos. Principalmente, eu não consigo acreditar que uma resposta dessas deva ser dirigida às crianças. Por quê? Simplesmente porque não acredito que elas irão funcionar e porque esse tipo de resposta nos faz uma humanidade pior do que somos e porque eu verdadeiramente me importo com isso.

Temos documentados períodos na história em que as crianças saíram completamente do controle. A famosa cruzada das crianças, no Medievo, envolveu roubos, assassinatos de adultos, rapto e aliciamento de outras crianças. Terminou em expedições de extermínio, em que os “gloriosos cavaleiros de Deus” extirparam esse mal da terra. Durante a longa guerra civil russa, que se seguiu à Revolução, novamente bandos de órfãos famintos trouxeram terror às populações já penalizadas pela guerra. A resposta foi uma ação dura do poder público, que terminou em extermínio.

Obviamente, que nosso medo, nossa exigência de providências, irá recuar diante de uma palavra tão forte: extermínio. Mas não é disso que falamos quando igualamos crianças a adultos? Do extermínio da infância? Dessa coisa tão recentemente criada que ainda tropeça? Desse espaço de existência que sonhamos garantir e, no entanto, falhamos miseravelmente?

Mesmo entendendo e partilhando do assombro, minha resposta tem imensa dificuldade em retirar o estatuto de criança daqueles que, na minha visão, ainda se parecem com uma. De fato, é no olhar vazio e doído de qualquer criança que perco minhas certezas. Eles me causam tanta dor e tanta culpa que não me arriscaria a lhes pedir uma punição severa, sem antes pedir para mim mesma e para todos que conheço e se acreditam adultos.

A infância é uma conquista e, como humana, eu não quero renunciar a ela.

* Nikelen Witter é Historiadora, professora e escritora. Fonte: http://sul21.com.br/jornal/2011/09/o-que-e-uma-crianca/