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Estudantes da USP votam por greve após protestos e retirada

Publicada em 09/11/2011.

Em Assembleia Geral, que reuniu cerca de três mil estudantes – segundo o DCE – no vão da História, na noite desta terça-feira (8), os alunos votaram pelo início imediato de uma greve geral dos estudantes.

O pleito foi acirrado. Muitas pessoas votaram a favor de um indicativo de greve, que possibilitaria uma discussão maior com todos os cursos e campi antes da paralisação geral. “A greve deve ser aprovada nas assembleias de base [de cada unidade]”, disseram.

Os apoiadores da greve imediata, porém, argumentaram que “não podem ocorrer aulas enquanto a USP estiver sitiada militarmente. Se esta não é a situação limite, o que tem que acontecer para a gente começar essa greve?”. Foi a opinião que prevaleceu.

Para a mobilização e organização, foi aprovada a composição de um comando de greve a partir da eleição de delegados em assembleias de cada unidade, que deverão ocorrer ao longo desta semana.

Por meio de votação, os estudantes decidiram não realizar “cadeiraços” durante a paralisação, o que significa que nenhum estudante será impedido de entrar nas salas de aula. Durante esta terça-feira (8), as aulas do curso de Letras foram suspensas por um piquete organizado pelo centro acadêmico.

O presidente da mesa afirmou que professores e funcionários ainda não se reuniram para decidir se irão aderir à paralisação. Outra Assembleia Geral será realizada na próxima quinta-feira (10) às 18h no Largo São Francisco – em frente à Faculdade de Direito – logo após um ato que começará ao meio-dia no mesmo local.

 Outras resoluções

As propostas de reocupar a reitoria ou acampar na Praça do Relógio ou na sede da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo foram rejeitadas por ampla maioria em votação.

A defesa dos eixos políticos do movimento estudantil, no entanto, foram aprovadas unanimemente: retirada de todos os processos administrativos contra estudantes e funcionários, fim do convênio da reitoria com a Polícia Militar e a saída da PM do campus, liberdade e não punição administrativa ou criminal aos estudantes presos durante a reintegração de posse e a saída de João Grandino Rodas do cargo de reitor.

A aprovação de um plano alternativo de segurança proposto pelo DCE foi uma das decisões mais polêmicas. As novas medidas incluiriam uma política preventiva de segurança, melhor iluminação do campus, abertura da USP à população, aumento do número de circulares – inclusive até a estação de metrô do Butantã – e treinamento de uma nova guarda universitária, com uma equipe especial para atender mulheres.

Alguns alunos foram contrários porque não houve discussão e aprofundamento das metas do plano. Os favoráveis se justificaram: “O movimento [estudantil] não pode agir só na reativa. A gente precisa propor”.

A Assembleia se encerrou oficialmente às 23h15.

Em carta, manifestantes afirmam que PM instalou 'clima de terror' na USP

Eles afirmam que foram agredidos e submetidos a pressão psicológica.
PM afirma que agiu dentro da legalidade durante reintegração de posse.

Paulo Toledo Piza e Raphael Prado Do G1 SP

Em carta aberta publicada por meio do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp), os manifestantes que foram retirados da reitoria da USP nesta terça-feira (8)  repudiaram a ação da Polícia Militar na reintegração de posse, ocorrida durante a madrugada. Segundo o diretor do Sintusp Marcelo Pablito, a reitoria “rompeu com todos os canais de comunicação [após a reintegração]”.  Questionado pela manhã  sobre a suposta truculência, o porta-voz da PM, major Marcel Soffner, disse que a corporação agiu dentro da legalidade.

“Os 73 jovens presos pela polícia tiveram a ousadia de denunciar a truculência da Polícia Militar”, disse, em frente ao 91º DP, para onde os detidos foram levados. O documento pede a revogação do convênio entre a USP e a PM, retirada dos processos contra os estudantes e liberdade para os manifestantes, que eles chamam de presos políticos.

Segundo o porta-voz do sindicato, a ditadura militar “vive na USP”. Ele chegou a reclamar de abusos de autoridade por parte da PM. Questionado sobre quais seriam esses abusos, ele, no entanto, não soube precisá-los. A ocupação da reitoria, segundo o Sintusp, foi democrática. “Foi decidida em assembleia e os alunos estavam abertos ao diálogo. A atitude da reitoria, porém, termina com qualquer tipo de comunicação.”

O manifesto divulgado pelo Sintusp afirma que os estudantes sofreram abusos, afirmação negada pela Polícia Militar. "Nós, estudantes da USP, que lutamos contra a polícia na universidade e pela retirada dos processos administrativos contra estudantes e trabalhadores, viemos por meio desta nota pública, denunciar a ação da Tropa de Choque e da Polícia Militar na madrugada do dia 8/11. Numa enorme demonstração de intransigência em meio ao período de negociação e na calada da noite, a reitoria foi responsável pela ação da tropa de choque da PM que militarizou a universidade numa repressão sem precedentes. Num operativo com 400 homens, cavalaria, helicópteros, carros especializados e fechamento do Portão 1 instalou-se um clima de terror, que lembrou os tempos mais sombrios da ditadura militar em nosso país", diz a nota.

 "Resistimos e nos obrigaram a entrar em salas escuras, agrediram estudantes, filmaram e fotografaram nossos rostos (homens sem farda nem identificação). Levaram todas as mulheres (24) para uma sala fechada, obrigando-as a sentarem no chão e ficarem rodeadas por policiais homens com cassetetes nas mãos. Levaram uma das estudantes para a sala ao lado, que gritou durante trinta minutos, levando-nos ao desespero ao ouvir gritos como o das torturas que ainda seguem impunes em nosso país. Tudo isso demonstra o verdadeiro caráter e o papel do convênio entre a USP e a Polícia Militar", diz o documento.
"A ditadura vive na USP. Tropa de choque, polícia militar, perseguições a estudantes e trabalhadores, demissão de dirigentes sindicais, espionagem contra ativistas e estudantes, repressão através de consultas psiquiátricas aos moradores do CRUSP (moradia estudantil). Nós, que estamos desde as 5h sob cárcere e controle dos policias, chamamos todos a se manifestarem contra a prisão de 73 estudantes e trabalhadores por lutarem com métodos legítimos por seus direitos", afirmam os estudantes, segundo a nota divulgada pelo Sintusp.

O capitão Emerson Massera, também porta-voz da Polícia Militar, disse que a carta é uma tentativa de desqualificar a ação da PM. “Foi uma ação perfeita, que agiu não só dentro da lei, mas respeitando integralmente os direitos da pessoa humana, que foi a maior preocupação na fase de planejamento e execução da operação. Nós fomos provocados o tempo todo e os policiais agiram sempre de maneira correta”, afirmou.

 

Depoimentos


O delegado Dejair Rodrigues, responsável pela 3ª Seccional (Zona Oeste), disse que, até as 16h30, 25 dos 73 alunos detidos durante a reintegração de posse tinham sido ouvidos. Nenhum deles quis responder às perguntas da polícia. O delegado informou ainda que, até o horário, ninguém havia pagado a fiança de R$ 545 arbitrada. Os alunos serão indiciados por dano ao patrimônio público e desobediência à ordem da Justiça.

Por volta das 15h, a mãe de um dos estudantes levados para o 91º DP também foi detida por desacato. “Ela xingou um policial do [Batalhão ] Choque. Bateu boca”, disse o delegado José Roberto Arruda. De acordo com ele, a mulher assinará um termo circunstanciado, quando não há necessidade de fazer boletim de ocorrência, e será liberada em seguida.

A mulher discutiu com o policial militar porque queria ver o filho, que estava dentro de um dos ônibus fretados para levar os universitários depois que a PM cumpriu a ordem de reintegração. Por volta das 16h, um ato em frente ao prédio da reitoria da USP reunia representantes de alunos, professores e funcionários que se manifestavam contra as prisões.   

 

Reintegração


O estopim para a ocupação de 12 dias na USP começou no dia 27 de outubro, quando a Polícia Militar, em um patrulhamento pelo campus da Cidade Universitária, deteve três alunos com maconha. Houve protesto e, no mesmo dia, os universitários ocuparam a sede administrativa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). No dia 1 de novembro, em assembleia, os estudantes decidiram desocupar o prédio da FFLCH, mas um grupo dissidente também fez uma votação e resolveu invadir o prédio da reitoria.

No dia 3, a Justiça autorizou a reintegração de posse do prédio da reitoria e deu 24 horas para os alunos saírem do local. Caso não cumprissem a ordem, a juíza que concedeu a liminar em favor da USP autorizou, "como medida extrema”, o uso de força policial. 
Representantes da reitoria, dos alunos e do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) se reuniram para tentar chegar a um acordo, mas não houve avanços. 
As principais reivindicações dos estudantes são a saída da PM do campus - o que implica acabar com o convênio firmado em setembro entre a corporação e a instituição para aumentar a segurança na Cidade Universitária-, e a revisão de processos administrativos e criminais abertos pela USP contra alunos e servidores. 
Uma reunião com estudantes e representantes da universidade estabeleceu no dia 5 um prazo final para que os alunos deixassem a reitoria: 23h de segunda-feira (7). Na madrugada do dia 8, por volta de 5h, a PM cumpriu a reintegração de posse do prédio, em uma operação que contou com a Tropa de Choque e teve 73 jovens detidos – 63 deles estavam dentro do prédio quando os policiais entraram. Eles foram levados de ônibus para uma delegacia. A polícia disse que encontrou coquetéis molotov, caixas com morteiros e um galão com gasolina foram nas salas da reitoria.

Fonte: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/11/em-carta-manifestantes-afirmam-que-pm-instalou-clima-de-terror-na-usp.html